Lembranças de um “pica-pau”

Publicado no “Noticias da VASP” de Maio/1980

A coluna do escritor desta edição traz, com muita justiça, a colaboração de José Sautchuk, encarregado da Central de Telecomunicações, que surpreendeu o pessoal da redação com seu texto claro, leve e harmonioso. Sautchuk, um paranaense da velha guarda dos pica-paus, como explica, conta fatos curiosos de sua vida, comentando inclusive que, em certa época, o radiotelegrafista ocupou o lugar hoje destinado aos rádio-amadores, de porta-vozes de situações catastróficas e não raras vezes de responsáveis por vidas humanas.


Não foi uma grande mentira.

Iniciei minha vida na VASP no dia 1º de abril de 1954, como auxiliar de telefonista na Estação de Telecomunicações, na minha cidade natal, Curitiba.

O que poderia ter sido uma mentira transformou-se, realmente, numa filosofia de vida, e em trabalho honesto que a Empresa proporciona a todos aqueles que, como eu, passaram a gostar de seu ofício.

Boas e ternas recordações trago, no meu íntimo, destes longos 26 anos que aqui estou.

No ano de 1956 realizava eu um grande sonho: conseguia o meu certificado de radiotelegrafista, estando apto então a operar numa profissão que sempre me atraiu, quer por influência familiar (sou filho e sobrinho de radiotelegrafista) quer pelo complexo que é o seu aprendizado. Para os leigos, permita-me ser um pouco mais claro e até um pouco egoísta: radiotelegrafia é como a música, nos atrai, penetra no sangue e no íntimo da gente, e, como na música, poucos têm queda ou o dom necessário para se tornar um bom profissional nessa importante atividade.

Ao transferir-me, no ano de 1959, para Ourinhos, como encarregado da Estação de Telecomunicações daquela cidade, que a VASP serviu por longos anos, passei a sentir, mais de perto, o quanto éramos importantes como elo de ligação, quer dentro da Empresa, quer favorecendo sempre aqueles que nos procuravam, para um recado a um lugar distante, socorrendo uma enfermidade em família, com a necessidade urgente de adquirir à distância algum medicamento para salvar uma vida ou comunicar o lamentável falecimento de alguém. O radiotelegrafista era o elemento intermediário na ligação empresa-povo, o que nos fazia, nas pequenas cidades servidas pela Empresa, sermos rodeados de todo o carinho por parte da população.

Poucos eram na cidade de Ourinhos os que não conheciam o Zé da VASP…

Ainda hoje, recordo com saudades os bons amigos que lá deixei, nos seis anos que lá convivi. Tenho duas filhas ourinhenses.

Nos últimos 10 anos, a evolução no sistema de telecomunicações da VASP substituiu a radiotelegrafia pela máquina de telex, e, com o aprimoramento cada vez maior desse sistema, os radiotelegrafistas foram aproveitados nesse novo método de Mensagem Impressa.

Faço parte hoje, com orgulho, da chamada “velha guarda” dos antigos “pica-paus” como éramos alcunhados…

Porém a “velha guarda” continua aqui, firme no posto e sempre às suas ordens, na Central de Telecomunicações da VASP, em São Paulo, zelando para que as mensagens cheguem sempre em tempo hábil ao seu destino.

Quero deixar aqui um agradecimento de todo o coração a um grande e querido amigo, o Engº Prado, que na reta final da minha carreira, pois já estou pensando seriamente na aposentadoria — é o bom chefe que, com toda a sua humanidade e compreensão, não mede esforços para apoiar esta coletividade que tenho orgulho de dirigir.

Quando regressar à minha terra natal, já aposentado, com certeza levarei comigo toda uma existência de recordações e a felicidade do dever cumprido.


Esse texto foi escrito pelo meu avô José Sautchuk que fez sua carreira na VASP e foi radiotelegrafista. Meu avô nasceu em 2 de novembro de 1934, em Curitiba, Paraná, e faleceu em 2 novembro de 1999, em sua cidade natal, com 65 anos.

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