A tal masculinidade sufocada

Tenho observado pessoalmente meus colegas e amigos homens e lido suas postagens. Além disso, tenho lido muitas matérias sobre questões de gênero. 
Cada vez mais tenho a nítida impressão de que muitos homens se sentem “perdidos” no mundo dos relacionamentos. Isso devido ao espaço que as mulheres vem ganhando no mercado de trabalho e por elas poderem estar num relacionamento de uma forma muito mais igualitária do que antigamente. Antigamente, o papel do homem em um relacionamento era o de provedor financeiro, ele tinha o dever de trabalhar o dia todo, o máximo possível, para trazer dinheiro para casa. E era esperado que ele se envolvesse o mínimo possível com as “coisas da casa” e o cuidado com os filhos, dever visto como da esposa. De certa forma, havia um distanciamento afetivo entre os pais e seus filhos e até de sua esposa. Vejo que antigamente a família não era vista como um conjunto de pessoas unidas pelo afeto e carinho, como se pode ver mais como o ideal de família buscado atualmente pelas pessoas. Era mais uma união de conveniência, onde a mulher, vista como incapaz de se sustentar, precisava de alguém que a bancasse financeiramente e, depois de certa idade, não era mais conveniente que fosse seu pai. E para os homens, a esposa acabava sendo quase uma “substituta” de suas mães, alguém que deveria cuidar deles.
Só que não é mais assim. Mulheres trabalhando é uma realidade atual e muitas não são dependentes financeiramente de seus parceiros. Como não precisam de alguém que as banque financeiramente, buscam parceiros com outras qualidades. Buscam um companheiro, uma pessoa que queira se envolver afetivamente com ela. Mas, por outro lado, os homens parecem que ainda estão tentando entender o porquê de um relacionamento e qual o seu papel, além de “bancar” a esposa e a família. Muitos até reclamam de uma suposta “masculinidade sufocada“. Os homens não estão ainda preparados para essa igualdade, para ter um papel diferente do que o de provedor. Foram criados para isso. A união para muitos ainda é isso: por um lado, ele trabalhe e coloca os bens materiais de um lado e, por outro, tem “alguém” para cuidar do resto… Sendo que o resto seria os cuidados com a casa e com os filhos. Bem, exatamente o que suas mães faziam por eles. Para que se preocupar com o resto afinal? Resto é resto, nada muito importante…

Mas ironias a parte, vejo que sim, muitos estão se esforçando para se adaptar a essa realidade e sim muitos já tem uma mente mais aberta e boa vontade. Mas, ainda de uma forma meio perdida e com grande estranhamento. Muitos ainda não se deram nem conta que esse dilema que vivem se origina na cultura machista. Pois bem, machismo prejudica os próprios homens também. Sociedade igual em direitos e deveres para homens e mulheres é bom para todos, homens e mulheres. Toda mudança é difícil e de certa forma dolorosa. Mas é também libertadora.

Acho bobagem dizer que exista uma masculinidade sufocada… Ou que o feminismo é uma tentativa de transformar mulheres em homens, para que essas possam ter a revanche. Acho que de fato é só um discurso de quem não quer mudar o status quo, porque é o mais cômodo, porque mudança traz medo e insegurança e porque isso trará perda do “poder” e do privilégio de alguns. Revanchismo não leva ao progresso da humanidade. E, com isso, também quero dizer que aplicativos de avaliação de pessoas, no caso homens, como o Lulu, não são ferramentas de luta feminista. É mais um aplicativo machista que continua a reproduzir a ordem estabelecida. Não há empoderamento das mulheres com o uso desse aplicativo, há sim uma reprodução da banalização das pessoas, tratando-as como mercadorias que podem ser avaliadas para que outros possam, posteriormente, se baseando nessas avaliações, “adquiri-la”. Dizem que é brincadeira, não se deve lá levar isso tudo muito a sério. Mas, como dizem, “toda brincadeira tem um fundo de verdade”, ou melhor, a “brincadeira” é um sintoma claro da sociedade em que vivemos.


Mais amor por favor… Menos julgamento; isso sim nos traz dor…

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